Marty Supreme e moda jogam na mesma equipa?

O filme “Marty Supreme”, nomeado ao Óscar de Melhor Filme, estreia-se hoje, dia 22 de janeiro de 2026, nos cinemas portugueses. 

Protagonizada por Timothée Chalamet  - um nome que vai muito além do grande ecrã - e realizada por Josh Safdie (“Uncut Gems”), a película acompanha Marty Mauser, um jovem vendedor de sapatos que acredita ser o melhor jogador de ténis de mesa do mundo.

À primeira vista, moda e pingue-pongue não parecem jogar na mesma equipa, mas a verdade é que o filme tem tudo que ver com moda. Queres saber porquê? Nós explicamos.

No grande ecrã

O cenário é Lower East Side (Nova Iorque) no ano 1952. Marty Mauser trabalha na sapataria do tio e não quer ficar por aí. Ele autoproclama-se como o melhor, mas como é que ele vai levar os outros a pensar o mesmo? É aí que a figurinista Miyako Bellizzi, designer e colaboradora frequente de Josh Safdie, entra em cena.

Para Marty, o espírito é “fake it until you make it” (finge até conseguires, numa tradução literal). A ambição está espelhada na forma como Marty se veste e é particularmente visível no fato cinzento, ainda envolto no plástico da lavandaria, que ele diz ter comprado de propósito para levar um campeonato internacional. 

Num filme em que Timothée usou lentes de contacto para poder usar os óculos da personagem para corrigir a vista, é de crer que a autenticidade e a exatidão histórica sejam primordiais e Miyako Bellizzi levou isso muito a sério. Nenhuma marca contemporânea foi utilizada nos figurinos (sim, roupa interior incluída) e parte da roupa foi encontrada no mercado de segunda mão vintage. No entanto, devido à escassez de figurinos (por exemplo, os equipamentos das equipas de ténis de mesa de vários países) e às cenas de ação do filme que poderiam levar à degradação dos figurinos, a maioria foi feita de propósito para “Marty Supreme”, por Miyako Bellizzi e a sua equipa.

As referências foram essenciais para recriar um ambiente fiel da época, não só em Nova Iorque como em Londres, Japão e outras localizações da história. Os filmes de Ken Jacobs, que documentam o Lower East Side nos anos 50, assim como livros, fotografias -  inclusive fotografias de família da figurinista que tem ascendência japonesa - , retratos e jogos de pingue-pongue foram fontes de informação que ajudaram a construir um mundo fidedigno para um filme de época.

A atenção foi até ao mais ínfimo detalhe. A personagem Marty Mauser é vagamente inspirada pelo campeão de ténis de mesa Marty Reisman, que tinha um estilo excêntrico e colorido. Certos detalhes, como umas luvas vermelhas, foram adicionados ao estilo de Marty Mauser para que essa referência não ficasse esquecida. 

A figurinista também teve em conta as diferenças entre classes e a velocidade da moda naquela época. Por um lado, personagens como Kay Stone, interpretrada por Gwyneth Paltrow, teve os seus figurinos inspirados nos primórdios de marcas como Balenciaga e Dior que começavam a ter relevância na altura. Por outro, muitos fatos utilizados refletiam as silhuetas dos anos 40, porque, em 1952, a maior fatia da população não estaria a utilizar algo feito na mesma década, salvo personagens como Milton, que dispunha de posses para tal.

No filme “Marty Supreme”, a moda deixou de ser um mero adereço, para se tornar uma realidade credível e uma personagem central que não ofusca a história. 

Fora do ecrã

Fora do ecrã, o filme da produtora A24 “Marty Supreme” também se distinguiu dos demais e a moda revelou-se tão decisiva para o hype como o principal embaixador, Timothée Chalamet

Em vez de seguir a linha de filmes como “Barbie” (2023), que teve parcerias com várias marcas e tornou o seu merchandisiong omnipresente, “Marty Supreme” seguiu um caminho diferente.

A produtora juntou-se ao ator, ao designer emergente NAHMIAS e à estilista pessoal de Timothée Chalamet, Taylor McNeill, para desenhar uma coleção cápsula inspirada na roupa de desporto retro. Pólos, bonés, porta-chaves, meias e calças foram lançados, mas a estrela principal foi, nada mais, nada menos, que o corta-vento

O famoso casaco foi disponibilizado em várias cores, incluindo nas paletas de cores das bandeiras do México e do Brasil, mas a versão que alcançou mais sucesso foi a azul escura, que passou dos 250 dólares originais para mais de 8000 dólares no website de revenda StockX (à data da publicação deste artigo). 

Estás a perguntar-te como é que um corta-vento se tornou um fenómeno cultural? Para além de Timothée o ter utilizado a cada oportunidade que teve nas suas várias cores, as partilhas orgânicas de outras pessoas influentes com grande visibilidade como Kylie Jenner, Kid Cudi, Frank Ocean, Kendall Jenner, Michael Phelps ou Lamine Yamal também ajudaram a criar o buzz pretendido. A escolha das pessoas para o “seeding” dos produtos foi feita a dedo e a aura de exclusividade foi reforçada com a venda do merchandising em lojas pop-up em cidades selecionadas durante o mês de dezembro de 2025. O sucesso comprovou-se quando apareceram imensos fãs de Timothée Chalamet e público que acompanhou a promoção do filme que queria ter a oportunidade de ter esta coleção única.

Estreando-se pela primeira vez na sétima arte, Tyler Okonma (mais conhecido como Tyler, The Creator), também quis deixar “Marty Supreme” na história da sua marca Golf Wang. Em parceria com a produtora A24, o artista criou uma coleção limitada inspirada nas silhuetas dos anos 50 em que tanto o ator principal, Timothée Chalamet, como as referências do filme foram o destaque

Na vida real, Timothée (contaste quantas vezes repetimos o seu nome neste artigo?), o ator nomeado ao Óscar de Melhor Ator pelo seu papel em “Marty Supreme”, foi o principal billboard do filme e ajudou-o a catapultar-se para a ribalta. Seja do suposto “leak” de uma reunião de Zoom com a equipa de marketing em que o ator desenha a campanha de promoção do filme, à aparição num jogo underground de ténis de mesa ligado a “Marty Supreme” ou ao icónico look em duo com a sua namorada Kylie Jenner na estreia do filme em Los Angeles, em que ambos apareceram completamente vestidos de laranja, a cor das bolas de pingue-pongue (e a cor associada ao filme), Timothée usou o seu know-how e estilo para que o filme se tornasse um sucesso.

A moda em “Marty Supreme”

O filme “Marty Supreme” não usa a moda como decoração. Usa-a como ferramenta de afirmação. Dentro do filme, o guarda-roupa constrói credibilidade, ambição e estatuto. Fora do ecrã, transforma-se em desejo, hype e fenómeno cultural.

Tal como Marty Mauser, a moda não pede licença para existir: impõe-se e diz quem és antes mesmo de abrires a boca.

“Marty Supreme” desafia as pessoas a sonhar mais alto (“dream big” é o slogan), de acreditar antes dos outros acreditarem em ti e de ocupar espaço mesmo quando ainda não te deram palco. A moda faz o mesmo há décadas.

Por isso, não: “Marty Supreme” não é um filme sobre moda. É um filme em que a moda dá sentido à história, dentro e fora do ecrã.

Depois deste deep dive, ainda achas que este filme não tem nada que ver com moda?